Não "o dom de cura," mas χαρίσματα ἰαμάτων — dons de curar
Todas as vezes que Paulo nomeia este dom, o grego está duplamente no plural: χαρίσματα (dons de graça) ἰαμάτων (de curas) — 1 Coríntios 12:9, 28 e 30. Um χάρισμα é um dom concreto de graça; um ἴαμα é uma cura específica. O português achata-o para "o dom de cura," como se fosse um poder permanente que uma pessoa carrega. O grego não se deixa achatar: são dons, de curas.
Essa gramática abre uma porta. Sugere não uma única capacidade que alguém possui, mas muitos dons distintos de muitas curas distintas — cada um entregue de novo pelo Espírito, "a cada um individualmente como Ele quer" (12:11). Dessa única observação decorre toda uma leitura da cura.
χάρισμαcharisma — um dom da graça
χαρίσματαcharismata — dons da graça (pl.)
ἴαμαiama — uma cura
ἰάματαiamata — curas (pl.)
O argumento · cinco andamentos
Construir o argumento a partir da gramática
Lê o duplo plural; vê que cada cura é um dom dado de novo, não uma posse; pesa o argumento de que os plurais significam muitas espécies; procura padrões na Escritura e na história; e põe tudo sob o único Espírito, para o bem do corpo.
I
Lê a gramática — ambas as palavras estão no plural
Três vezes Paulo o nomeia, e três vezes os plurais se mantêm.
Não um dom, não uma cura — dons de curas, e o mesmo duplo plural de novo em 12:28 e 12:30 ("têm todos dons de curar?"). Quando um escritor inspirado repete uma forma invulgar três vezes, a gramática está a fazer uma observação. Devemos escutá-la.
II
Cada cura é um dom dado de novo — não uma posse
Ninguém guarda um "poder" no banco. O Espírito entrega cada um como quer.
…um e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.
Um χάρισμα é, pela sua raiz (χάρις, graça), um dom — recebido, não gerado. Por isso ninguém "tem cura" no bolso. Cada cura é uma graça concedida no momento, como o Espírito escolhe. Isso guarda-nos tanto do orgulho como da presunção.
III
O argumento para muitas espécies
Se os dons variam, talvez as curas também variem — dom a dom, pessoa a pessoa.
Todo o enquadramento de Paulo é a diversidade dentro da unidade. Eis, pois, o argumento: o duplo plural pode significar que, tal como os dons diferem, também as curas diferem — uma graça para esta aflição, outra para aquela; uma cura a fluir por este servo, outra por aquele. Não «um curandeiro», mas muitas graças particulares, distribuídas pelo corpo. Sustentado como uma leitura razoável dos plurais — não como um texto de prova.
…impondo-lhe as mãos, o curou … e os demais que tinham enfermidades também vinham e eram curados.
A Escritura mostra curas a fluir de modos particulares — o pai de Públio, de febre e disenteria primeiro, depois "os demais." Ao longo de Atos há sinais distintos em momentos distintos; e na longa história da igreja alguns servos parecem ter carregado fruto consistente em áreas particulares — certas condições, vez após vez. O duplo plural dá enquadramento a essa observação: muitos dons, para muitas curas. Observa tais padrões com honestidade, mas segura-os com mãos leves.
V
Por um só Espírito, para o corpo, em amor
Por mais variados que sejam, os dons têm um só Doador e um só propósito.
…a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum.
Seja qual for a variedade, o alvo é um: o bem comum, não o nome de quem cura. Desejai os dons com fervor (12:31), mas "segui o amor" acima de tudo (14:1). Muitos dons, um só Espírito, um só Corpo, um só propósito — a misericórdia de Deus a alcançar os doentes através do Seu povo.
A sombra · as distorções
Quando o dom se torna a posse, o palco ou o preço de um homem
O duplo plural é também uma advertência. Se cada cura é um dom concedido de novo pelo Espírito, então três coisas ficam excluídas de uma vez: tratar a cura como um poder que uma pessoa possui e pode invocar à vontade; culpar os doentes por "não terem fé suficiente" quando uma cura não vem; e transformar o dom numa marca, num palco ou numa coisa para comprar e vender.
…o teu dinheiro pereça contigo, porque cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro.
Simão queria o poder como uma posse para manejar; a resposta de Pedro foi severa. Um χάρισμα é graça — não pode ser merecido, possuído ou vendido. Quem cura é um servo através de quem o Espírito opera, nunca a fonte.
O desfecho · soberano, buscado, administrado
Muitos dons, um só Doador misericordioso
Por isso, lê os plurais e deixa-os moldar-te. A cura não é um poder estático, mas uma corrente viva de dons de graça, distribuídos pelo Espírito como Ele quer — talvez de modos particulares através de servos particulares, para necessidades particulares. Deseja estes dons com fervor. Ora com ousadia pelos doentes. E quando o Espírito cura, dá-Lhe a glória; quando Ele espera, confia na Sua sabedoria — pois o dom nunca foi teu para comandar.
Orai sobre os doentes, ungindo-os com azeite; a oração da fé os salvará, e o Senhor os levantará (Tg 5:14–15). 1 Co 12:7 — todo o dom é para o bem comum. Busca muito; entrega o resultado; ama acima de tudo.
Uma palavra de prudência — e com sabedoria pastoral
Os crentes divergem aqui. Alguns (cessacionistas) sustentam que os dons de cura pertenceram à era apostólica; outros (continuístas, em cuja corrente este estudo se situa) esperam-nos hoje. E o argumento específico feito acima — que "dons de curar" implica unções particulares para condições particulares — é uma inferência razoável da gramática e dos padrões observados, mas não é uma doutrina que o texto explicite. A Escritura em parte alguma cataloga «curandeiros especialistas»; sublinha a liberdade soberana do Espírito (12:11). Por isso, sustenta o argumento como uma proposta humilde, útil para entender o que possas ver — não uma caixa onde encaixar Deus.
Acima de tudo, sê brando. Quando a cura não vem, não é prova de que o doente, ou quem ora, careceu de fé — a Escritura conhece pessoas piedosas deixadas sem cura por uma época, e um reino que é "já e ainda não." Nunca oponhas o cuidado médico à oração; um médico e o Espírito não são rivais. Ora com fé, ama o que sofre de qualquer modo, e deixa o tempo e o resultado com um Pai que é sempre bom. (Vê o estudo complementar sobre ἰάομαι / θεραπεύω — a Cura.)
Para o leitor atento
Duas coisas que vale a pena reter
① A gramática por onde tudo começou
"Dons de curar" — χαρίσματα ἰαμάτων, ambos no plural, três vezes seguidas (1 Co 12:9, 28, 30). A leitura mais limpa é a mais simples: muitos dons, muitas curas, dados caso a caso em vez de um poder permanente. O dividendo pastoral é real — uma época seca não significa que o "perdeste," e um avanço notável não significa que o "possuis." Cada cura é uma misericórdia concedida no momento, devolvida ao Doador em ação de graças.
② Buscado, não agarrado
Paulo diz para desejar os dons com fervor (12:31; 14:1) e que o Espírito dá como quer (12:11). Ambos ao mesmo tempo: estende-te por eles, e recebe-os de mão aberta. Por isso, ora pelos doentes com ousadia — unge com azeite, impõe as mãos, espera que Deus se mova (Tg 5:14–16) — e ainda assim segura os resultados com paz. A fé insiste; a humildade deixa Deus ser Deus. E nunca lances culpa sobre aquele que ainda espera ser curado.